Uma lição de vida revelada no Caminho de Santiago de Compostela

Viajar é um grande prazer na vida e eu acredito ter nascido com o espírito cigano. Desde criança sonhava em desbravar o mundo e graças a Deus, com a dedicação ao trabalho e essa vontade natural, tenho feito inúmeras e maravilhosas viagens dentro e fora do Brasil.

A grande viagem da minha vida foi sem dúvida alguma, em 2007 à Espanha. Coincidência ou não, o sangue espanhol, o qual trago no sobrenome, misturado ao português ajudou a sentir na pele esse gosto aventureiro num sabor de puro prazer. Foi uma viagem insólita, aonde realizei duas em uma só: a viagem literal de conhecer parte daquele país e a viagem espiritual, num mergulho profundo em meu ser, ao peregrinar 800 km no famoso Caminho de Santiago da Compostela.

Tinha resolvido fazer um período sabático para repensar a minha vida. Levei um ano entre decidir e planejar essa viagem, afinal, caminhar oito horas por dia, na média de 30 quilômetros, não era uma coisa simples de pensar e fazer, como se arruma as malas para uma viagem qualquer.

Detalhes a parte, eu finalmente embarquei para Madrid no dia 12 de abril.

Meus motivos não vêm ao caso, mas eu queria vivenciar essa aventura física para testar os meus limites, conhecer novas cidades, principalmente por conta da história medieval e experimentar essa busca existencial. Foi uma viagem transformadora, literalmente lavei a alma. Além de tudo, isso me rendeu um livro de 281 páginas, O homem que chorava.

Para quem quiser receber a “Compostellana”, o magnífico certificado, em latin, que é dado na cidade de Santiago, ao lado da grande catedral de Compostela, é preciso fazer no mínimo 200 km. Isso é confirmado através dos carimbos que se recebe no ‘passaporte’ (uma credencial com várias dobras) pelos albergues ou órgãos oficiais do caminho. Esse passaporte pode ser adquirido ainda no Brasil, na ACACS em São Paulo http://www.santiago.org.br/caminhadas-presparatoria.asp

Mas, vamos para o início, o gran finale eu volto depois. Comecei a minha jornada pelo trajeto tradicional na divisa com a França, na pequena Saint Jean Pied de Port, bem aos pés das montanhas dos Pirineus, aonde você já sente a áurea mística da jornada e da fé que move um ser humano ao realizar determinadas façanhas na vida.  O ideal é fazer isso antes do verão, para não precisar brigar por um lugar nos albergues, os quais são gratuitos, pois a temporada é demasiada disputada. Mas se você é daqueles que prefere hotel ou hostal, o custo é bem maior.  Aí depende do tipo da sua aventura, com ou sem emoção.

Em todos os lugares tem indicações, mas recomendo você levar um mapa espanhol específico do caminho. Também não se preocupe muito com a língua (pra quem quase não fala como eu rssrrsrs) pois com uma mochila nas costas, será bem mais fácil ter ajuda através de gestos. O bom também é que você encontra gente de todos os lugares do mundo, mas não se entusiasme, amizade ali, são mais do que efêmeras, até mesmo entre brasileiros. Objetivo principal, espiritualidade.

Desde o início da caminhada, tudo é deslumbrante. Você nem sente o peso (14kg no meu caso) da mochila e nem a temperatura, em abril a média é de 16 graus, ao peregrinar. Seus pensamentos vão além e seu corpo simplesmente segue um ritmo ditado pelo seu coração. As paisagens, uma mais deslumbrante do que a outra, cidades medievais, pontes, castelos, citadellas, histórias, mitos e lendas vão ilustrando a caminhada de cada cinco ou dez quilômetros, entre um vilarejo e outro, nas dezenas de cidades que ficam no trajeto ao norte da Espanha.

Mesmo quando se embrenha pelas matas e florestas, há setas nas árvores, cercas e beira de estradas que indicam sempre a direção a seguir na cor amarela ou o símbolo da concha. Difícil se perder e fácil de sonhar com o deslumbre de cada panorama pitoresco, digno de cartões postais. Trilhas estreitas, calçadas romanas, estradas sinuosas, montanhas, estradas e até beira de asfalto em alguns e poucos casos, vão lhe absorvendo num labirinto esotérico, o qual você vai ficando cada vez mais extasiado. Claro, volta e meia, uma parada para descansar, sentar um pouco, registrar os lugares, fazer uma ração (um lanche) em algum restaurante pitoresco, cumprimentar outros peregrinos, enfim, respirar o ar do bem-estar espiritual tanto durante a caminhada quanto nas paradas. Você também exercita a sua paciência ou melhor a sua ansiedade.

O caminho é longo, mas vale a pena pelos lugares e sua história, pelo desafio e seus desdobramentos, pela espiritualidade e sua recompensa, pela fé em algo que você acredite, pela coragem e determinação, com o resultado que o transformará para sempre, numa pessoa melhor. Alí, muitas histórias e comparações você vai fazer. E o bom de tudo é descobrir que a simplicidade é o grande luxo da vida, a qual faz a diferença no detalhe de nossa felicidade.

São muitas cidades e vilarejos, de nomes incomuns e cada qual com suas peculiaridades. Você passa por vinhedos, pequenos sítios de produção leiteira, plantações de feno, videiras, camponeses típicos e moradores tranquilos tirando uma sesta até as três da tarde, deixando vários lugares como se tivesse sido abandonado ou parecendo uma cidadezinha fantasma. A tranquilidade reina até mesmo na cidade de nome La Reina, ou seja, A rainha. É tudo muito bucólico, porém muito profundo se você levar a sério e tiver um propósito de mudança. O caminho é milenar e foi construído por conta da devoção a lenda que conta sobre a descoberta dos restos do apóstolo Thiago, o maior, num campo de estrelas, por isso o nome: Compostela. Independente da religião, vale muito pela espiritualidade alcançada do início ao fim.

 Terminada a jornada, na chegada da grande Santiago da Compostela, agora uma metrópole, é preciso atravessar alguns quarteirões modernos até chegar a parte antiga, histórica e se deslumbrar com a suntuosa catedral. Lá, além do certificado da compostellana, lembra? Você terá uma missa às 11h, se chegar de manhã ou uma às 17h, se chegar a tarde, celebrada exclusivamente aos peregrinos. São mais 20 minutos de emoção que você se sente no céu, entre a belíssima voz de uma freira que canta um solo de Ave Maria, órgãos de tubo, botafumero e todo ritual católico possível. Depois da bênção é só dar um abraço na enorme e dourada estátua do apóstolo Thiago, atrás do altar e fazer um pedido. Afinal, você conseguiu.

Eu tive a felicidade e a graça de fazer a peregrinação, aonde até hoje me sinto abençoado. Ainda pude aproveitar e fazer um pouco de turismo em mais de um mês que passei lá. Conheci Madrid, Barcelona e Toledo na Espanha, depois a Cidade do Porto e Lisboa em Portugal. São todas magníficas com certeza, mas fiquei encantado pela pequena Toledo na região da Mancha, numa viagem rápida de trem de cerca de 45 minutos de Madrid. A cidade do famoso cavaleiro Dom Quixote, personagem atípico do escritor Miguel de Cervantes que conta as aventuras imaginárias do Fidalgo e seu fiel escudeiro Sancho Pança, numa literatura das mais brilhantes dos últimos tempos, pois foi escrita em 1605.

Aprendi muito e me deliciei em cada lugar. E além das lindas e maravilhosas lembranças que guardo na memória e no coração, ainda sou um colecionador contumaz de souvenir e mapas. Um hobby que não abro mão. Coleciono de cada lugar que visito um mapa da cidade e pelo menos uma recordação, a qual compro sem pechinchar, pois pra mim, quando estou em casa, é meu grande troféu; olhar em minha estante e aparadouro, cada peça que representa um lugar, uma história ou uma lenda de séculos ou milênios, as quais se misturam com a trajetória da minha vida.

Saiba mais sobre o livro O homem que chorava neste link

https://mariovicente.com.br/o-homem-que-chorava-no-caminho-de-santiago-de-compostela/

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