A Queda De Um Anjo

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Conto digital por Afonso Cruz

A luz é intensa aqui no sétimo círculo. Ponho o chapéu de palhinha com abas, com uma fita preta, que me foi fornecido à entrada. Agora vejo melhor a paisagem, as espreguiçadeiras, os anjos, Deus, os outros habitantes da Eternidade. Nunca pensei que houvesse espreguiçadeiras no Paraíso, um móvel tão amigo de um dos pecados mortais. Tapo os olhos por causa da luz. É demais, é muita luz, e deveria haver um botão para baixar, para dar penumbra, como quando baixo os estores nas tardes de agosto. Imaginava o Paraíso com estores. Espero que haja uma noite para aliviar este dia tão luminoso.

As grades parecem seguras, pintadas de azul, que vai bem com o céu. Mas tenho de reclamar. Onde é que está o meu marido? À minha frente surge um anjo, todo vestido de branco. Quase que ergo a mão para lhe tocar a face, tão jovem, tão bonita, tão cheia de luz. Em vez disso, sai-me uma pergunta seca: onde é que está o meu marido? O anjo fica sem saber o que dizer. Digo-lhe que não me interessa que possam ter achado que o meu marido não era uma boa pessoa, que ele não era pessoa de vir para o Céu. A verdade é que se eu vou para o Paraíso, se o mereço, tenho de ter o meu marido comigo. Que raio de coisa é esta em que passamos a eternidade separados das pessoas que amamos? O anjo diz para me acalmar, mas eu não posso aceitar uma coisa destas. Têm muita luz, mas esquecem-se de quem amamos! O meu marido podia ser mau, mas se amamos pessoas assim o que é que devemos fazer? Viver eternamente sem elas? Que porcaria de paraíso é este? O anjo

 

encolhe os ombros. Nunca pensei que os anjos os encolhessem, aliás, nunca pensei que tivessem ombros.

As camas brancas sucedem-se. A brancura agrada-me, é sinal de higiene. Há um homem a olhar para mim e tem bigode. Esta é outra coisa que eu não esperava encontrar. Para quê estes pelos? Será que temos de os cortar ou ficam sempre do mesmo tamanho? É difícil dizer. Acho que ainda não passou um dia, mas quem é que pode garantir tal coisa? O tempo deve passar de maneira diferente por aqui. Se calhar passou uma eternidade. O tempo é muito relativo e eu sei muito bem o que isso é. Tive um tio que quando abria a boca para falar, parecia que nunca mais se iria calar, parecia uma eternidade. Há uma jarra em cima da mesa e vários anjos. Digo-lhes que se o meu marido não está aqui, que se não é bom o suficiente para estar aqui, então eu prefiro ir para o Inferno. Pelo menos estaremos juntos. Tentam dissuadir-me, mas eu não vou desistir. Agarram em mim e levam-me para um quarto. Sentam-me na cama e falam-me com voz doce. Fazem com que me deite, trazem-me um copo de água e eu, passados minutos, sinto vontade de dormir. Acordo de noite (afinal há noites no Paraíso) e tento acender um candeeiro, mas só dá escuro. Tenho de chegar ao Inferno, penso, tenho de chegar ao Inferno.

 

 

Estou no sexto círculo e iniciei a minha viagem para o Inferno. Começo a lem- brar-me de coisas, recordações, idas à praia. Como eu gostava de ir à praia, da areia, do sol a derreter-me o corpo. O meu marido não gostava. Ficava deitado na toalha a beber cerveja e a ler o jornal desportivo, enquanto eu caminhava até à beira de água. Então — porque nunca aprendi a nadar, a única coisa que sabia era ir ao fundo — baixava-me, sentava-me na areia, para que as ondas me molhassem o peito, a cara, o cabelo. Depois levantava-me e via tudo desfocado, esfregava os olhos com as mãos, ficava com eles a arder e cheios de areia, e voltava-me para ver se o meu marido estava a olhar para mim. Parecia que jamais o fazia, mas nunca tive a certeza, pois apesar de ele, quando me voltava, estar sempre a olhar para outro lado qualquer, nada me garante que, quando estava de costas, a banhar-me, ele não estivesse a olhar para mim. Aliás, tenho a certeza de que estava a olhar para mim. Provavel- mente disfarçava por vergonha. Lembro-me dos meus dedos todos enrugados de estar dentro de água, pareciam ameixas secas, e eu gostava de os mostrar ao meu marido. Corria para ele com as mãos esticadas e mostrava a polpa dos dedos, todos encarquilhados. O meu marido encolhia os ombros e dizia para eu o deixar em paz. Tinha razão, sempre fui muito infantil. Não é fácil ser-se uma criança tão velha

 

como eu sou. Muitas vezes quero dançar e as minhas pernas apenas tremem, não concordam com o que eu quero e isso deixa-me triste. Insulto as minhas pernas e digo-lhes que ficaram velhas e já não sabem viver a vida, por isso, para lhes mostrar como se pode ser feliz, danço realmente, mas sem mexer as pernas, só balançando os braços. E quando estes se cansam, danço só com a imaginação e então dou pulos muito grandes e, nessa altura, ninguém me repreende, nem sequer o meu marido que continua a ler o jornal desportivo.

 

 

Tenho comichão nas costas. Que coisa estranha, pois como é que se coça as costas? No Paraíso não deveria haver costas se não chegamos lá com as mãos. Começo a ter demasiadas reclamações a fazer. Que o mundo não fosse perfeito, compreende-

-se, mas um paraíso assim é inaceitável. Talvez deva pedir aos anjos que me cocem as costas, mas não vejo nenhum. Dizem que os anjos não têm costas, o que faz todo o sentido. Se calhar eu também não tenho e a comichão que sinto é como a daqueles sujeitos amputados, soldados e isso, que continuam a sentir dor na perna que lhes foi serrada para impedir que a gangrena alastrasse. É um inferno muito grande ter comichão numa zona do corpo que já não possuímos. É o mesmo que ir às compras sem levar a carteira.

Pois é, tenho a certeza de que não tenho costas. Se alguém chegasse ao pé de mim e me tocasse, não me acertava no corpo, mas sim na alma. Se me dessem uma palmada no ombro, acertavam-me no coração. É tudo profundo, não há coisas superficiais, como montras e centros comerciais. Quando tento coçar a garganta, começo a coçar as palavras e fico com a voz rouca.

Os meus pés estão engelhados. Deve ser apenas uma impressão. É como se tivesse ficado muito tempo no banho, como quando ia à praia e o meu marido fingia não olhar para mim. Tenho sempre muito medo de sair da banheira, escorregar e partir a cabeça do fémur e ter de ficar estendida numa cama a recuperar, e ficar meses assim, sem poder espirrar, senão o osso não recupera. E eu que sou alérgica, especialmente na primavera. Os pólenes baralham-me o nariz. Que coisa: por causa das flores não vou conseguir recuperar o osso da perna. Paciência, também não devo precisar dele, deve haver maneira de andar a voar. Tinha um amigo que dizia que viajava com a imaginação. A minha imaginação está um bocadinho velha, como se tivesse ficado demasiado tempo no banho, mas acho que ainda dá para viagens curtas, voar de um pensamento para outro.

Sim, a cabeça funciona bem. Passo por lugares do meu passado com muita

 

rapidez, como se corresse num campo verde. Vejo o meu gato Van Gogh, que é muito peludo, e eu sou alérgica aos animais, não é só aos pólenes, por isso, não lhe mexo, mas passo os olhos por cima dele, que tem o mesmo efeito que passar as mãos, e ele ronrona e sente o meu olhar como se fossem os meus dedos. Gosto muito do Van Gogh, que é um gato de pernas curtas e cauda comprida. Não tem uma orelha por causa de um cão. Caça ratos e pombos e por vezes ficamos com o alpendre cheio de penas e de animais mortos. É muito bom caçador e eu digo-lhe isso mesmo, pois é muito triste quando fazemos alguma coisa bem e ninguém repara. Eu sempre fui boa a recortar palavras, mas a minha mãe e o meu pai nunca repararam nisso, e diziam que eu tinha de aprender a cozinhar e a ser uma mulher e a ser trabalhadeira. Foi o que eu fiz, mas era melhor com as palavras do que a ser mulher ou a estrelar ovos. Raramente saíam da frigideira com a gema inteira. Por vezes o meu marido pedia-me ovos estrelados e eu cozia arroz de ervilhas. Ele ficava aborrecido, mas era melhor assim do que rebentar a gema.

 

 

A primeira vez que eu e o meu marido fizemos amor foi numa caravana que ele tinha comprado em segunda mão, toda branca com gaivotas azuis. Não eram gaivotas verdadeiras, eram autocolantes e não voavam, apesar de terem as asas abertas. A caravana tinha uma mesa que fazia de sala e tecidos azuis e vermelhos. O meu marido — que na altura em que tinha comprado a caravana com gaivotas azuis ainda não era meu marido — deu-me um estalo porque eu não queria fazer umas coisas com a boca. Foi bem feito, eu era muito burra, era como uma criança e ele era uma pessoa muito sábia e experimentada que tinha andado embarcada e tinha visto o mundo. Fiquei muito mais mulher depois daquela tarde. Sonhei com flores que haviam sido usadas nos cabelos de bailarinas e com vestidos compridos por estrear. Sonhei com raparigas descalças que corriam para dentro delas mesmas e desapare- ciam para sempre. Nessa altura, sonhava muitas coisas e, nos meus sonhos, havia sempre animais a correrem pelas flores como se fossem abelhas, e havia alfaiates que morriam de febre-amarela, e havia arquitetos de pirâmides egípcias que eram construídas com pedra-sabão.

Uma vez vesti-me de branco, como a caravana, e acabei por sujar o vestido, pois o branco atrai muitas nódoas. Foi no dia em que me casei. O branco também atrai maridos e as nódoas são como os pássaros, andam a voar à nossa volta e poisam em roupas lavadas.

Estou a descer rapidamente para o Inferno. Consigo sentir o calor a encher-me

 

as bochechas, a cara toda. Dantes sabia ver as horas sem olhar para o relógio e nunca falhava por mais de um ou dois minutos.

 

 

O meu marido foi um homem que, a certa altura da vida, começou a juntar anos. Em vez de os viver, juntava-os. Viveu muito tempo, mas sem noção disso. O meu marido já estava tão velho que já não envelhecia, apenas apodrecia. Eu gostava muito dele e não sou capaz de viver eternamente sem o ter a meu lado eternamente. Os desenhos recortam-se com tesouras. A alma recorta-se com palavras. Eu sempre fiz isso muito bem, é como cortar as unhas. Sempre fui muito boa nisso. Há pessoas que sabem saltar ao eixo muito bem e outras que sabem mexer o café com as duas mãos — às vezes com a esquerda, outras vezes com a direita — e outras que sabem fazer contas e dançar ao mesmo tempo. Eu sou boa a recortar palavras. Cada um é para o que nasce e eu com as palavras é como cortar as unhas, mesmo rente à carne. Quando era nova usava sandálias e as unhas pintadas. Quando somos novos somos eternos e, em vez de envelhecermos, crescemos. Depois é que começamos a, em vez de crescer, envelhecer. Então deixamos de durar para sempre e começamos a ser avós e a gostar de flores e a andar muito devagarinho e a ter dificuldade em dobrar as costas. O que é uma pena, pois como gostamos mais de flores, temos uma grande tendência para as apanhar e pô-las em jarras com água em cima da cómoda e na mesa da sala. Fica tudo perfumado, tudo florido e cheio de cores. As visitas gostam muito e elogiam. Eu agradeço os elogios e digo: mas olhe que, senhora Guzman, faz

mal às costas.

 

 

O cabelo não cai só aos homens, e às árvores no outono, também cai às mulheres, e eu já não tenho muito. Ultimamente, sempre que me vejo ao espelho consigo ver a curva da cabeça.

Quando esfrego os olhos são muitos séculos de olhar que estou a esfregar. Porque uma pessoa não tem só o seu passado, tem também os passados de todos os seus familiares, dos seus amigos, das histórias que leu ou que ouviu. Não é? Quando esfregamos os olhos, esfregamos muitos séculos.

Um dia, o meu marido acordou sem conseguir pronunciar palavras, apenas o sinal de interrompido do telefone. Abria a boca e saía um som de máquina. Dei-lhe

 

um beijo e aquilo passou-lhe, mas foi muito esquisito e eu quando tinha saudades dele, quando ele estava fora muitos dias, levantava o auscultador e esperava até ouvir o sinal de interrompido.

Eu costumava dizer ao meu marido que as minhas palavras ficavam mesmo rente à carne. Dizia-lhe que era como cortar as unhas. Às vezes apontava para algumas palavras que via à minha volta. Ele ficava muito irritado quando eu fazia isso. É que eu sempre consegui ver e ouvir certas palavras que ficam nas salas e nos quartos das casas. Entro numa assoalhada e ouço palavras antigas que foram pronunciadas há um ano ou há uma semana ou há menos tempo. Há palavras que se dizem que nunca mais se apagam.

 

 

Quando era nova pensei que deveria substituir os fins por recomeços para não ter muita coisa para enterrar. Depois, quando envelheci, pensei que talvez devesse passar mais tempo a enterrar coisas. Funciona com as dálias e com as margaridas. Enterramos sementes e aquilo cresce em direção ao sol. Os corpos sem luz têm vontade de se exibir e de crescerem pelo céu acima como se subissem escadas. Enter- ramos coisas e elas crescem, aparecem, engordam, ficam verdes. É um bom exercício e foi algo que fiz com frequência: enterrar-me no jardim. O meu marido detestava que o fizesse, mas aquilo dava-me vontade de viver e eu saía da terra como as dálias e as margaridas, cheia de pétalas e cheia de cores. Enfiava-me a preto e branco e saía como se fosse felicidade. Depois passava muito tempo a limpar a roupa e, por três vezes, apanhei carraças. Tive de as tirar com um jornal a arder e eu detesto queimar as notícias. Dizem que não prestam, mas eu sinto que são importantes e informam-

-nos que a nossa vida está sempre a caminhar para o abismo e que não há nada a fazer senão continuar a votar nas pessoas erradas, que é para isso que serve a demo- cracia, segundo me é dado perceber.

Estou toda nua e sinto-me mais nova. A proximidade ao Inferno tem efeitos benéficos na pele. Ouço barulho de automóveis e isso diz-nos alguma coisa sobre...

 

 

Nota final — ou R/C.

A minha prima, Ema de Jesus, atirou-se da janela do lar Paraíso — que ocupava o sétimo andar de um prédio do centro —, para onde se havia mudado recentemente, logo a seguir à morte do marido. Todos sentimos algum alívio quando ele morreu

 

após doença prolongada. É um sentimento triste, mas não há que ser hipócrita a respeito disso.

Sempre ouvi dizer que o tempo é muito relativo. Lembro-me de um tio que, quando abria a boca, parecia que nunca mais se iria calar, eram discursos que pareciam durar eternidades. Espero que a queda da minha prima lhe tenha permitido, tal como tenho ouvido dizer que acontece nestas ocasiões, rever a sua vida toda em segundos como se a estivesse a viver de novo. Ou pelo menos relembrar algumas das coisas que lhe foram mais queridas. Acho que oitenta e dois anos cabem perfeitamente dentro de uma queda de sete andares.

O lar Paraíso foi alvo de um processo judicial.

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