O cosmopolita do sertão

Para o músico autor de ‘Apenas um rapaz latino americano’, mesmo título da obra organizada pelo jornalista e escritor Jotabê Medeiros, isso seria, caso ele estivesse vivo, o suficiente para defini-lo como pessoa e artista. Porém, para quem lê o livro de 238 páginas, logo de início percebe ser sobre um erudita de personalidade inquietante, por vezes imprevisível, que foi Antônio Carlos Belchior, compositor e cantor cearense morto no dia 30 de abril de 2017.

Provavelmente o sumiço do cantor, por mais de dez anos, desde 2007, tenha dificultado o trabalho do escritor para produzir uma biografia mais tradicional, com elementos pessoais, familiares e profissionais. Bem organizado em capítulos, o livro é de leitura rápida e com ritmo quase musical, já que o foco de Jotabê foi o de definir e justificar as canções produzidas, os encontros e o pensamento artístico de Belchior.  

Somente no início, a biografia mostra a passagem de um Belchior adolescente indo para um mosteiro de Capuchinhos no sertão do Ceará, em Guaramiranga, antes dos 18 anos. São raros os momentos que mostram o artista numa vida cotidiana, assim como são relíquias as fotografias, sem estar atreladas a sua grande paixão; a música.

Antes mesmo de Belchior enveredar pela música e mostrar todo seu talento, ele ainda tentou fazer medicina em Fortaleza, mas decepcionado com um professor, deu as costas para a universidade e decidiu pela carreira musical.

O jornalista Jotabê se mostra um grande conhecedor da música popular, dando justificativas as principais composições e encontros de Belchior com seus parceiros: o amigo Fausto Nilo (compositor e psicólogo) é citado em uma de suas músicas (Um analista amigo meu…), além de Fagner com o qual fez a bela Mucuripe e Ednard.

Embora o livro não se atenha de fato a sua vida e sim a sua obra, é notório a obsessão de Belchior pelo americano Bo Dylan, mostrando de certa forma uma ingenuidade e humildade, como aconteceu no seu encontro com o ídolo numa de suas apresentações no Brasil. Belchior parecia um tiete por não acreditar que conseguira um dedo de proza com Dylan. Assim como se mostrou tímido e reticente ao conhecer Elis Regina que deixou famosa a gravação de sua composição ‘Como Nossos pais”.

Era um cidadão antenado, cosmopolita, que saíra do sertão nordestino para ganhar o mundo. Mas como todo bom e excêntrico artista, Belchior, buscava a perfeição, andava na contramão, queria ir além dos acordes de suas canções.

O livro de Jotabê mostra e descreve as mais famosas canções e parcerias de Belchior. Até enfatiza a relação de amor e ódio que ele teve com o parceiro Fagner, chegando as vias de fatos em um determinado encontro no Rio de Janeiro numa noite de muita música e bebedeira.

Mesmo que o biografado não tenha sua vida discriminada cronologicamente, a obra vale leitura pelo entendimento musical, além dos porquês de certas canções e até mesmo o desejo obsessivo do cantor em querer produzir algo baseado na Divina Comédia de Dante, mostrando também seu lado filosófico.

Ao ler o livro “Apenas um rapaz latino americano” você termina com a sensação de que gosta ainda mais das músicas de Belchior, embora muitas questões permaneçam atuais, tanto da sua história pessoal, quanto dos hiatos de sua vida artística e profissional. Nessa trajetória conduzida pelo jornalista Jotabê, é possível ouvir bem um Belchior que compôs maravilhosas canções. Por outro lado, a nota musical que daria o tom protagonista da sua vida não passou de uma melodia triste e confusa. Essa, ficou sem o lirismo de seus arranjos, mas continua a tocar nos corações de quem acompanhou parte do melhor da música brasileira.

Por Mario Vicente

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