O Big Brother na praça da minha cidade

Psiu! tenho que parar…

Daqui do meu pedestal de mais de 12 metros de altura posso ver muitas coisas de dia e à noite. De noite é quando faço a diferença nessa imensa praça, pois fico bem no meio dela, espreitando tudo ao redor.

Faz uns cinco anos que me colocaram nesta praça. Foi para substituir um outro que era mais baixo, com uma estrutura comprometida e visual surrado por ser de madeira e por ele estar com os olhos embaçados. Lembro-me da insólita inauguração: o prefeito, fez seu discurso que ninguém ouvia. Vereadores se acotovelavam na frente de honra para disputar um espaço, na esperança de aparecerem na capa do semanário. E o povo só de olho na festança: muita comida, diversão e música noite adentro. Na política atual, pode dar banquete que ele não comparece. Com a pandemia então, muito menos. Sigo minhas observações quando senta um solitário ou um casal, amigos, qualquer pessoa e para minha decepção, muita gente vem sem máscara.

A Praça é imponente, grande e funcional. Pena é que ela ficou vazia mesmo antes desse vírus implacável absorver o mundo. Movimento, tivemos nos bons tempos, em alguns fins de semana. Algumas famílias traziam suas crianças para brincar no parquinho ou meia dúzia de pessoas que aproveitavam do lugar. Mesmo com lanchonetes, sorveteria, sala de jogos, de aulas de música, biblioteca e até pista de skate, a praça fora usada como deveria, agora, saber quando? Os bancos no centro da Praça, ficam nostálgicos, solitários. Um espaço público em nosso país deveria ser um lugar assim como nosso lar, cheio de alegria contagiante, de inocência e aprendizado, mas o medo, a insegurança tomou conta dos cidadãos. Os políticos (maioria), só lembram do espaço se isso se converter em votos, uma lástima.

Eu não queria misturar as coisas e falar de política. Meu assunto predileto é o amor. Eu tiro proveito todos os dias: um deles é quando a lua reflete o brilho do rei Sol. Fico pasmo e na cheia? Esqueço da minha função de iluminar o ambiente, e chego a apagar. Sei que esses eventuais apagões não prejudicam ninguém, senão, um funcionário da prefeitura já estaria aqui para vistoriar minhas piscadas noturnas ou não? Imagina, quantas reclamações as repartições públicas recebem e quantas delas eles atendem? Deixa pra lá…

Outro hábito, apesar do mau uso da praça, é ouvir as conversas alheias e observar o comportamento das pessoas. Tem cada figura! Se fosse falar sobre as besteiras, as cenas patéticas, os momentos privados ou situações embaraçosas entre tantas peculiaridades do ser humano seriam tantas histórias. Mas, já que toquei no assunto, vou relatar resumidamente, ao estilo 1984, algumas pérolas que me vêm à lembrança.

Sabe aquelas famosas beatas de lugares provincianos? Aqui não é diferente. Havia três que fazem plantão. Quando elas seguiam à missa das quintas-feiras, paravam uma meia hora no banco central e se esbaldavam de criticar a vida alheia. Não escapava nem o padre. Até eu ficava ruborizado com as acusações. Lembro-me de uma conversa bem insinuante, mas nem imagino de quem elas falavam: “Você viu na reunião de sábado, o jeito que ele olhava para a sobrinha da Cristina”? Perguntou uma delas. “E como vi comadre, Deus me livre, mas se isso for verdade, vamos ter que fazer alguma coisa” reforçava a outra. “Imagina Jandira, todo mundo trabalhando para a festa de fim de ano e ele sumindo todas as tardes, deixando tudo pra nós… Aí tem gente chacoalhando a roseira…”

Em outra ocasião, duas amigas de caminhadas faziam o percurso das tardes até chegar na praça. A mais velha mudou o rumo da conversa e insinuou que o marido de sua amiga tinha um caso extraconjungal. Assustada e meio ofegante pela pressa, a outra não falava, apenas concordava com o hum! Hum!

À noite, quando a mais nova voltou para tomar um ar e refletir sobre certas aventuras, ficou grudada ao celular e adivinhe com quem ela conversava? Sim, com ele: “Não Alfredo, você não tá entendendo, preste bem atenção, a Valquíria tá falando muito com a sua esposa. Logo ela fica encucada hein. É bom a gente ter mais espaço”. Pior que ela nem deixava o amante falar e continuava a tagarelar. Resolvi dar umas piscadinhas de alerta, mas ela nem se tocou do escuro por alguns segundos. A parte da sacanagem, nem ouso reproduzir aqui, só posso dizer que a garota era muito insinuante. Volta e meia, parava para se observar de cima a baixo.

Se eu pudesse contar tudo que vejo e ouço, hum! Essa seria uma cidade perdida! Isso que o movimento é pouco, então imagine se a praça fosse movimentada como nas grandes cidades.

E tem os preconceituosos enrustidos. Certo dia veio esse jovem recém saído da universidade que passeava com sua melhor amiga e admiradora. Sentaram-se no banco próximo da lanchonete, a poucos metros de onde estou. A mocinha olhava-o com uma paixão enorme, mas ele se fazia de difícil, dizendo que estava noivo, pois, a considerava sua confidente. O que para ela não fazia diferença. O rapaz, embora fosse inteligente e apessoado, tinha a mania de falar das pessoas: os acima do peso, gente feia, para ele ou sem dinheiro. Para fechar sua lista, os gays e idosos eram menosprezados com aspereza. Ela, sem jeito, argumentava, porém, ele era implacável e não prestava atenção no que ela falava.

Uma semana depois, em uma madrugada de domingo, esse jovem apareceu com outro amigo e passaram horas conversando, sentados no mesmo banco da praça. Percebi que o comportamento era de muita intimidade. O amigo do preconceituoso parecia mais à vontade. Por outro lado, o preconceituoso se esgueirava, meio a contragosto, todo enriçado feito um gato escaldado. Depois ia cedendo e se esquecia do lugar mergulhar na escuridão de seus desejos.

Também vejo alguns idosos, bem sucedidos, os quais passam a tarde jogando buraco entre meia dúzia de aposentados. O jogo é uma mera desculpa para o bate-papo acirrado, pois não demora para falar de política, outro de futebol, uns escutam, dois ousam falar de mulher e um tenta puxar uma conversa mais prazerosa. Assuntos banais dominam à mesa. Eles só concordam quando o alvo é Cândido: um aposentado pão-duro que não se casou, não tem família. Em seus 82 anos, goza de boa saúde, por conta de suas caminhadas, exercícios e da boa alimentação. Ele tem o hábito de circular pelas casas e lojas comerciais, das quais recebe o aluguel. Quer vistoriar e se assegurar do seu patrimônio. Quando ele aparece para jogar, é o alvo das brincadeiras e chacotas dos demais. E tudo que ele quer é ter paz de espírito, viver sozinho e feliz até precisar ir para uma casa de repouso, pois já ouvi várias ligações dele fazendo investigações de valores e estilo de cuidados.

Daqui vejo de tudo, até mesmo gente que insinua tirar a própria vida num drama que me deixa angustiado e sem forças para qualquer reação. É meu cotidiano e, pode apostar, daqui vejo até aqueles que passam correndo, sem ao menos admirar o jardim, um banco, uma árvore. Outros que não acenam e segue cabisbaixo, perdidos na própria existência. Na pressa do tempo, do trabalho e dos compromissos diários, muitos não percebem a beleza natural das coisas e muito menos que sempre há alguém está observando. Bom, isso é outra história.

Não se preocupe em caso de querer fazer uma visita aqui na praça. Venha respirar ar puro, mesmo na pandemia, mas tome todas as precauções, certo. Aqui, eu conto o milagre, mas preservo o Santo.

Psiu! Tenho que parar… chegou um casal e acaba de se sentar confortavelmente no banco principal da praça. Hum! Pintou um clima… se você quiser saber mais, agora só na próxima… nossa! que beijo… o amor é tudo!

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