A personagem que desafiou a misoginia

Foi ao anoitecer de um domingo de Carnaval, em 1957, na cidade de Sollares, que Zaira teve sua adolescência interrompida drasticamente. Era só uma matinê inocente e ela acompanhava a prima Camila com o namorado. Zaira tinha 15 anos na época, foi drogada, depois, violentamente deflorada por quatro rapazes da alta sociedade.  Acuada em casa, sem contar nada para ninguém, não demorou para os sintomas de saúde dedurá-la a mãe. Ela se descobriu grávida depois do infortúnio, então foi obrigada pelo pai, um rico empresário, a se esconder num convento de Curitiba para não manchar a honra da família…

Mademoiselle Zaira é uma história de ficção, porém baseada em fatos, como tantos relatos e estatísticas sobre violência sexual contra mulheres. E nisso se inclui a violência contra crianças e adolescentes no Brasil. O tema continua sendo ignorado, tanto quanto a maioria dos abusos que não são registrados pelas vítimas, as quais preferem o silêncio por medo e vergonha. Isso ajuda a manter mais de 90% dos agressores à solta.

Desde o início da pandemia, o Brasil tem uma mulher morta a cada 9 horas. É o quinto país do mundo no ranking dos feminicídios. Uma estatística assustadora que continua sendo velada e desses crimes, apenas 10% são denunciados. Tudo pode piorar, pois a cada dois minutos ocorre uma violência doméstica, potencializada pelo país das arminhas. Em pleno século XXI ainda vivemos numa sociedade androcêntrica. Estudos mostram que em 2018, foram registrados 180 estupros por dia e desses casos, 82% eram de mulheres. Estamos longe de acabar com essa misoginia.

A violência não é só física, mas psicológica, moral, política de gênero entre tantas. Nessa vergonha nacional, se inclui as meninas de 13 anos que a cada 15 minutos, uma é violentada. O Brasil também é perverso com as mulheres trans e travestis com recorde de assassinatos. Nem mesmo a criação do Disk Denúncia pelos números 100 e 180 conseguiu amenizar essa dor dilacerante nos lares brasileiros. Estudos ainda revelam que quase 50% das mulheres já sofreram assédio no trabalho e os números, ranking e estatísticas só mancham o gigante Brasil conhecido pelo Futebol e Carnaval. Soma-se a isso essa psicopatia governamental que está aí, desgovernando o país e incentivando cada vez mais o machismo, a brutalidade e a insensatez humana.

Leia mais sobre o livro neste link. Mademoiselle Zaira, a garota do convento

“Vitimização de Mulheres no Brasil” pesquisa realizada pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, constatou que 26,5 milhões de mulheres sofreram algum tipo de assédio nos últimos 12 meses. O assédio mais frequente são as cantadas ou comentários desrespeitosos nos espaços públicos (31,9% das mulheres foram vítimas, ou seja, 22,3 milhões). Não existem medida protetiva para as mulheres e nos últimos dois anos com ou sem pandemia, o crime tornou-se invisível nessa sociedade que se diz cristã. Será?

E o que Mademoiselle Zaira tem a ver com tudo isso. A violência sexual é uma delas. Embora, a história seja de ficção, a personagem Zaira passa por esse difícil e irreversível drama da mulher. Imagine para uma adolescente de 15 anos que viu sua vida virar de cabeça para baixo em 1957. Mas ela teve fé, coragem e forças para se superar e com seu amor de infância, encarou seu drama até encontrar o filho raptado, 18 anos depois. Uma saga que se passa nos Anos Dourados e fala desses temas tão difíceis: violência sexual, traição, abandono, rejeição, vingança, preconceito, fidelidade para citar alguns do tempero dramático desse romance de realismo.

Vale lembrar que na maioria dos casos, tanto na realidade assim como nessa ficção do autor, o algoz, geralmente, habita sob o mesmo teto da sua presa.

Mario Vicenti, autor do livro

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