O homem que chorava

Uma lição de vida revelada no Caminho de Santiago da Compostela

Mademoiselle Zaira

Versão impressa, disponível para venda direto pelo site. R$ 29,00

 

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Natureza Clandestina

O primeiro livro do autor foi publicado em Cascavel em 1987.

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POSTs

Uma noite inesquecível e nada mais.


Uma noite perfeita. Pensou ela com aquele ar blasé e o coração de menina apaixonada. Que mais poderia querer. Era menos do que esperava num terceiro encontro. Parece que ele tinha lido seus pensamentos e seus desejos mais secretos nos limites da carência humana. Levá-la ao seu pequeno apartamento, simples sim, porém bem decorado, com móveis modernos de cores vivas, uma sala conjugada na cozinha americana, dava mais intimidade ao casal durante os afazeres do jantar. Não foi assim um jantar tradicional, pois ele a surpreendera com a dieta do mediterrâneo, tão saudável quanto sua expectativa amorosa, à base de salada, peixe, frutas, massas e claro, vinho, ao invés de levá-la para jantar num restaurante chique. Além de tudo o cara era bom na cozinha sem perder o charme e a desenvoltura. Pensou estar sonhando, quem sabe até estar num filme hollywoodiano, vivendo o papel de uma Michelle Pfeiffer ou Nicole Kidman.

 

Não tinha luz de velas, mas um abajur no canto da sala com a luminosidade ideal, o qual criava uma penumbra que marcava as silhuetas na movimentação pela sala de jantar. Ele foi um gentleman, até mesmo se levantava para dar a volta à mesa e servir-lhe mais uma taça de vinho, com aquele sorriso que poderia absorver sua alma num instante. Ela se sentiu nas nuvens, foi paixão, amor, tesão, desejo, enfim, tudo ao mesmo tempo que seria impossível não se entregar de corpo e alma naquela noite luminosa.

 

A sobremesa foi um manjar dos deuses, com um petit gateau de creme holandês e amêndoas, sentados no puf próximo à janela. Até mesmo a lua foi cúmplice. Quando ela desviou o olhar para janela, um luar prateado refletia por entre o balé das cortinas esvoaçantes, mas não pelo vento e sim pelo silencioso ventilador esquecido num outro canto da sala e ao som de Sky fall de Adele, na altura ideal, sem comprometer a conversa e os olhares plangentes: só no outro dia ela se tocou e se lembrou da música, – como não entendia inglês – então foi buscar a tradução da letra e caiu a ficha na mensagem ‘romântica’ do tema do último filme de 007.

 

Ah! A paixão tem dessas coisas e o orgulho ferido da alma feminina não se deixa levar por essas efemeridades do falo masculino, quando mistura tesão e uma simples química de pele. Mas a noite, ah! aquela noite, foi simplesmente singular. O jeito que ele a conduziu no seu santuário do amor, aonde pétalas de rosas brancas acenavam para o caminho da felicidade plena. Foi um ritual tão mágico que foi possível ouvir a alegria de seu coração transcender no peito e dissipar pelos poros do seu corpo esguio, sedento e entregue aos prazeres da carne e do amor incondicional.

 

A cama, com um jogo de lençóis tão novinho em folha, que dava para sentir o cheiro do cetim, era outro convite ao deslumbre. A maciez do colchão se confundia com a suavidade dos gestos dele em leves toques de mãos pelo seu pescoço, um afago no cabelo, um beijo roubado e mil suspiros no ouvido, com palavras sedutoras, feito um bálsamo para alma. Não demorou muito para os dois se esconderem debaixo dos lençóis, onde um mundo a parte deixava de respirar, apenas os corpos falavam, a boca umedecia qualquer temor e o coração já esvaecido, deixava o olhar ultrapassar a fronteira dos pensamentos ou qualquer ensejo de sonho, desejo, nem vontade de existir.

 

Foi uma noite esplendorosa, jamais sentida antes, um gozo jamais experimentado sem o pudor de outrora, um alívio no peito, um sorriso cravado no olhar, uma entrega de carícias, carinho e sexo sem culpa, se dor, sem neura, sem nada, sexo pelo sexo e depois de tudo, além de tudo, no calor da noite, mais um afago entrelaçados na diagonal da cama, mais um sussurrar na alma, mais uma palavra mansa e um abraço macio entregue madrugada adentro, como se as cortinas do grande palco do amor, cerrassem lentamente na linha do horizonte.

 

Quis aquela noite lhe encher de devaneios resistindo ao sono, tamanha alegria, que nem cabia dentro de si. Queria ela parar o relógio, mesmo às duas da madrugada para eternizar a sua felicidade pura, o auge da sua inquietude como mulher, mas quis o tempo seguir e depois de tantas horas, agora ele ali dormindo de ladinho, num sono profundo, feito um menino perdido num mundo distante, ela já não segurava mais o cansaço de tanta alegria e emoção, então, tentando não acordar o responsável por aquela noite fascinante, ela se entregou também ao sono dos mortais ao abraçar o último dos românticos na face da terra.

 

Foi de repente quando a noite deu lugar ao clarão do dia, com a cortina do quarto anunciando a aurora e uma nova realidade veio à tona. Teria ela sonhado com uma noite de rainha, mas não, pois acordara fora de casa, fora da sua cama, numa outra totalmente estranha, porém cheirosa e impregnada com os resquícios da noite anterior. A primeira coisa foi procurar por ele do outro lado da cama e ao estar sozinha, imaginou um café da manhã na cama, flores, mais surpresas como a vivida na noite passada. Mas ao sentir certa demora, como se 30 segundos fossem uma eternidade, foi olhar as horas em seu celular e ao perceber o entardecer, levantou-se depressa, foi até o banheiro e nem sinal dele. Imaginou, ter ido na cozinha, ou na padaria, algo assim, simples.

 

Mas o lado racional veio à tona então ela foi até a cozinha e com a mesa posta, porém com apenas um pão amanhecido, um pote de margarina e um doce, a cafeteira na pia esperando ser ligada e um bilhete na mesa enquanto ela terminava de se vestir andando e pensando sobre a noite, sobre tudo, sobre o agora até que pegou o bilhete e leu sua mensagem:

 

Obrigado pela noite maravilhosa, precisei sair por conta de uma reunião importante, por favor, ao sair deixe as chaves com o porteiro, a gente se fala. Beijos, Gustavo.

 

 

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